quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

VIDAS E HISTÓRIAS


TODOS nos fascinamos com histórias. Sejam elas quais forem, sejam quais forem as pessoas; as que escrevem e as que leem... As que contam e as que ouvem. Para toda história há sempre leitores em algum lugar, e histórias para todo tipo de leitor. Há tempos, realmente a perder de vista, me vi fascinado pelas histórias. Verídicas, fictícias, adaptadas, marcantes, esquecidas... Ou pelo menos eu pensava que era. Porque há menos tempo, bem menos mesmo, descobri que o que me fascina realmente são os personagens, não as histórias. As pessoas, e todas as suas possibilidades. Percebi que as histórias, todas elas, são pretextos para os personagens. Porque eles, que representam a vida, são o grande conteúdo, a grande essência. Talvez por esse motivo, o velho Machado de Assis se ocupava mais no psicológico e na alma de seus personagens que nas tramas das histórias que eles viviam. Convencer alguém de uma história, ou propô-la, é relativamente fácil. Convencer alguém que o personagem escrito é real, é um desafio diferente. Mesmo que ele seja real apenas em alguma parte, em algum lugar, em alguma situação. Pode ser alguém de outro mundo, um ser mitológico ou o que o autor quiser que ele seja, mas deve convencer o seu leitor de que ele existe. Deve dar-lhe as possibilidades cabíveis dentro do que se propõe no texto.
Um dia levei um par de sapatos para o sapateiro colar pra mim, e conversamos um pouco. Ele me disse que morava há quarenta e três anos no bairro, e que era sapateiro há trinta e dois. Meu Deus! Me deu vontade de ser um cara que morava há quarenta e três anos no mesmo lugar, e que fazia a mesma coisa há trinta e dois; de preferencia, sapateiro. Esse cara já deve ter visto muita coisa mudar por ali... Já deve ter visto muita mudança na indústria de sapatos também. Quem era? O que o fez chegar ali aos quinze anos de idade? Sua família, suas ideias, seu dia a dia...
            Quando tenho uma vista privilegiada, como numa sacada de um edifício, ou na frente da casa em cima de um morro fico olhando para aquele monte de lares... As janelas, e cruzo meus olhares com as pessoas que transitam. Mas gosto de fechar o foco. Quem é aquele cara que saiu no quintal agora, naquela casa lá longe, de porta e janela amarela? Qual o seu nome? O que ele faz da vida? Sua rotina, seus amigos, seus problemas, suas ambições, e como a vida o levou até ali. Aquele cara mesmo, na piscina daquela cobertura, ou aquele outro, atravessando a pontinha sobre o córrego. Devia ser interessante saber umas quatro ou cinco respostas de uma dessas pessoas, e através dali criar algo... É, eu acho que deve ser muito interessante.
     
    De uns tempos pra cá comecei a colecionar histórias verdadeiras. Elas enlaçam personagens diversos e situações aos montes. É como se eu importasse experiência, pra preencher mais o meu espaço de poucos anos de observação. Essas histórias são misturadas, separadas, confundidas em minha mente, assim como os personagens que elas sugerem. E assim, com esse material reciclado, vou criando e recriando. Mas com isso não quero dizer que publico a vida de ninguém, porque não faço. Elas são aproveitadas de formas inusitadas, quase subconscientemente. E quando são feitas com consciência, mistura o personagem de uma com a vida de outra e o local de outro, tudo trocado, tudo adaptado. De tal forma que, nem eu nem o personagem conseguimos lembrar boa parte das fontes de inspiração.
      Os métodos de coleta dessas historias e vidas também são inadvertidamente dinâmicos. Quase nunca se repetem, e geralmente os fornecedores não tem consciência do que elas se tornam. Às vezes entrevistadas diretamente, às vezes apenas observadas atentamente. Às vezes seis meses de pesquisa, às vezes seis segundos de atenção. O “se” está sempre presente na hora de aproveitar esse material humano, e acaba por reconstruir a maioria das coisas.
            

     Essa fonte inesgotável que é o ser humano, é um material fantástico para quem gosta de criar, sobretudo no mundo das artes.  É um fenômeno que gira em torno do dinamismo de mudanças que ocorrem nas vidas e no mundo. Quando conheço alguém que viaja muito e faz varias coisas, fico imaginando a cabeça de uma pessoa assim, e tentando coloca-la em diversas situações na minha mente, e exercito assim a criação sob uma espécie de trilho, pelo qual a história vai deslizar até ganhar impulso próprio.


        Qual o motivo de aquela mulher estar lendo aquele livro no trem? Quem é o cara que entrou no ônibus no ponto anterior? Qual a historia do aniversariante daquela festa em que o garçom trabalha, e que caminhos o tal garçom galgou para chegar até aquela bandeja? Acho, mesmo, que em algum ponto do universo, do ar, das ideias, sei lá... Em algum ponto, de fato, todos nos ligamos a todos, e a tudo. É o que costumo chamar de engrenagem. O sapato que vc compra foi tocado por quem o fez, por quem o encaixou, por quem o vendeu, por quem o empacotou, até chegar a você. Pra mim, este tipo de ligação é secundária, e existe apenas para nos dar qualquer explicação de que todos precisamos de todos e estamos ligados a todos; mas estou certo de que os motivos (aqueles que desconhecemos de fato) são infinitamente maiores e mais intensos. Essa energia toda é que compõe a matéria de que todos somos feitos... Aquela que inspirou o comentário de Shakespeare de que somos feitos da mesma matéria que os sonhos. Foi a palavra que ele escolheu; poética, bonito. Não sei se seria isso ou não, talvez eu usasse outra. Mas o fato de ele ter pensado nessa mesma coisa que nos une a todos é simplesmente maravilhoso, tanto quanto à obra dele. Porque ela foi inspirada na obra do mundo e da natureza: o ser humano. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

SOMOS UMA EMPRESA PESSOAL?

Estamos falindo? Estamos indo bem? Os índices dos valores que consideramos mais tem subido ou descido ultimamente? Que gráfico mais podemos considerar adequado ao nosso momento, seja ele financeiro, social, amoroso, profissional, sei lá... É interessante pensar a vida como se pensa uma empresa? Eu, sinceramente falando, começo a pensar que sim. E essa conclusão me veio a mente após fazer algumas comparações: uma empresa tem hora para abrir e fechar todos os dias; tem uma rotina estipulada, ainda que mudada periodicamente. Uma empresa possui objetivos claros e tem o respeito e a responsabilidade daqueles que dependem dela, o que gera comprometimento da parte deles para com a instituição. Uma empresa se estuda periodicamente, compara dados, índices, faturamento, gastos. É curioso ver pela ótica de que eu particularmente, nunca fui muito ligado a matemática, para agora estar falando de índices e cálculos. Mas sempre estive ligado a objetivos, a tentativas de novas diretrizes na vida, a busca de resultados melhores, a busca de um foco... A escolha de  um foco. Porque a empresa também eu lado humano e não apenas exato; tanto que, está na área de Humanas, não de Exatas. 

Quando penso nisso hoje, começo a ver que as coisas poderiam estar mais organizadas nos diversos setores da minha vida, se a encarasse como uma empresa. A gente é capaz de levantar cedo pra bater o ponto no horário certo, todos os dias, estejamos ou não muito a fim. Mas para nós mesmos a coisa se torna mais difícil... Estipularmos um horário para nossas folgas ou férias - até elas devem ser organizadas! Porque, se uma empresa quando bem sucedida é um exemplo para as outras, uma vida bem sucedida também (nos diversos setores que ela apresenta) também é um exemplo para os outros; para amigos, para conhecidos... Aproximando pessoas que se afinam com o sucesso. Pois bem, é a forma que quero me relacionar com a minha própria vida daqui pra frente.

Começar o meu dia sempre com o que tracei anteriormente. Abrir a minha casa como abro uma empresa, me abrir a vida naquele instante como entro em uma empresa todo dia. Abrir as janelas, tirar a roupa de dormir logo cedo, assumindo o dia; saber porque estou ligando a TV, não apenas ligando por ligar. Ter os trabalhos que farei no computador já estipulados quando abri-lo, e não me perder no tempo e deixar que nisso vá metade do meu dia. Quero reservar o tempo para o meu filho, para minha esposa, para as coisas que gosto; quero priorizar as coisas que preciso fazer. Tudo deve estar harmonizado com os objetivos principais, delineando-se para isso claramente um foco. Quero anotar as entradas e saídas de dinheiro, agendar visitas, saber dizer não quando aquilo não vier de encontro ao planejado que realmente precisa ser cumprido. Quero pensar antes aquilo que quero ver na TV, aquilo que vou buscar na Internet (até mesmo a navegação de todo dia, como leitura das manchetes, deve ser pensada). Quero respeitar os meus horários e metas, como respeito os do meu trabalho. Quero fazer um balanço das minhas emoções periodicamente, como num gráfico. As que valeram a pena e merecem ser repetidas, aquelas que devo descartar pois me desvia do caminho traçado. Quero fazer um balanço do meu comportamente com as pessoas com as quais me relaciono, desde as mais íntimas até as mais distanciadas. Quem são, o que quero delas, e o que posso foferecer a elas também. Quero distribuir simpatia, respeito, Amor, mas quero tudo isso também; e não quero obtê-los por pedir ou exigir, mas sim por merecê-los. Quero honrar meus prórpios princípios, quero um "ISO 15.000" para minha empresa. Quero ser bem sucedido na vida. E isso para mim, não significa apenas uma vida financeira estável - que hoje, despido do preconceito e da hipocrisia nesse caso, sei que é muito importantes sim - mas sim uma vida equilibrada. Equilibrada na saúde, pois devo cuidar das instalações dessa empresa, equilibrada nos sentimentos, pois devo me regrar de acordo com aquilo que tenho por correto, e não apenas por aquilo que gostaria que fosse. Uma vida equilibrada no setor profissional, não exatamente naquilo que faço pelo salário (sem descartá-lo também, claro), mas sim pela minha paixão profissional, por aquilo e,m quê batalho.


Ah, minha empresa... Isso tudo está muito mais claro pra mim hoje. Assim quero manter a linha de pensamento, para abraçar com vontade os novos empreendimentos. E certamente, convidar você e outros empresários para o coquetel comemorativo do meu sucesso, a fim de que sirva de exemplo a todos.

quarta-feira, 5 de março de 2014

RETALHOS DE UM PANO SÓ

Música no celular. Calça de moletom. Caiseta. Tênnis. Tudo pronto para a largada. Abro o portão, inicio a caminhada. São sete e dez da manhã. Penso que poderia ter começado mais cedo; penso então que, depois de levar o Gessinger na escola seria legal emendar. A gente sempre pensa em fazer diferente quando se está fazendo, quando o importante - na verdade - é que  já estamos fazendo. Ontem não tinha pensado nisso, nem tinha planejado. Eram planos da Simone; mas por qualquer motivo, ela não tem aderido a ideia. Vou eu. Afinal, caminhar em volta da praça não é privilégio pra quem precisa (e pra quem pensa que precisa) perder alguns quilos, ou para quem pretende ganhá-los. É para quem quer. Seja para abrir o dia com disposição, por saúde, pra dar uma arejada na mente e no corpo, ou simplesmente pelo motivo de estar-sozinho-andando-ouvindo musica. Não sei qual o meu objetivo ao certo. E me pergunto: tem mesmo que haver um?
Enquanto Humberto Gessinger canta "Um dia me disseram..." observo as casas que todos os dias estão lá, e nunca tinha reparado direito. Cada esquina cruzada parece um adescoberta nova, Cruzo por pessoas que vez e outra via na rua. Enfim! Algo em comum! Enfim, trocamos sorriso, e às vezes até um cortês Bom Dia. Os pensamentos do dia anterior se impõem, disputando espaço em minha mente com os do dia atual, que querem fluir. Geralmente, quando isso acontece nenhum deles ganha: uma terceira rama de pensamentos se faz dessas duas. Boa essa sensação de não ter que decidir o que pensar ou o que dizer. Quando se conversa consigo próprio não nos cobramos respostas prontas e imediatas.
Acho que essas coisas devem ser como são as mudanças reais: graduais, sem aviso, sem marcação, de preparo silencioso: geralmente o resultado da nossa desatenção a determinada coisa durante muito tempo. Não creio na solidão dos grupos protestantes, nem que eles tenham poderes reais de mudança. Geralmente quando se muda alguma coisa, isso já está acontecendo há muito tempo, a gente só veio a perceber agora, é diferente. Mas isso é comum entre nós, humanos, termos aquilo que somos (ou pensamos que somos) como paradigma pra tudo! Ontem fui confundido com um purista pelo fato de não crer nas mudanças radicais. Cabe aqui minha defesa: creio nas mudanças porque elas sempre acontecerão (até gosto do axioma), mas não creio que aconteçam exatamente a maneira que vemos; são contemporâneas a humanidade, não aos humanos. Não foi D.Pedro II quem deu a chamada Independencia do nosso país, porque ela já vinha acontecendo (até os mais desatentos sabiam) nos quatro cantos do Brasil Imperial. Ele apenas culminou tudo isso, o que evidentemente não tira o mérito dele (se ele o tiver).
Mudei essa manhã. Saí, ao invés de passar a minha primeira hora da manhã na Internet. Senti que isso foi mais sadio da minha parte. Mas sei o quanto de influencia das vozes em coro pode ter essa observação. Independe do assunto ou da razão, temos certo desespero pelos coros, as vozes em conjunto. Vozes que às vezes falam por falar, porque escutam outras vozes falando, que escutaram outras, que repetem outras. Sabe aquela brincadeira do telefone sem fio? Aquela de se dizer uma coisa a uma pessoa, e deixar a mensagem ir rolando de uma pessoa pra outra, numa fila? Juro que, se aqui há de minha parte, é inconsciente! Afinal, como chega tudo isso pra você? Pra mim? Como chegam os ecos, os coros? Tem duas escolhas: dar continuidade ou sacar algo e ser mais pessoal, mas individual. Sempre temos escolha, porque até mesmo não escolher nenhuma, é uma delas; não dar ouvidos também, assim como repetir com exatidão o que já ouvimos. Os católicos tem a fé do papa, os budistas a do Buda, os alunos a dos professores, o fã a do ídolo. Mas qual é a nossa própria? A minha? A sua? Acreditamos em algo, ou apenas repetimos essa crença (estranhamente igual para todos)? Tem que dar as mãos, tem que ir todo mundo junto. Afinal... Afinal... Bom, temos sim, porque... Por que mesmo? Porque pensamos que temos. Então temos.
Não luto mais por aquilo que não acredito conhecer. Nem sei se lutar é o termo certo para o que eu faço. O fato de gostar de escrever não me obriga a escrever; é o contrário, é por gostar de escrever que escrevo, (não o contrário)! Agora estou gostando de andar, acho que farei o mesmo amanhã. Que pensamentos me acompanharão? Será que algum fato que me me ocorrerá hoje? Ou algo que planejo pra amanhã? Ou a mistura dos dois? A mistura dos dois não tem que ser o meio, nem acredito que seja possível... A gente sempre pende pra lá ou pra cá, nem que seja por um momento, por um dia. Nem que seja por uma vida.
"Somos quem podemos ser... Sonhos que podemos ser..." E a faixa acabou.