TODOS nos fascinamos com histórias. Sejam elas quais forem, sejam quais forem as
pessoas; as que escrevem e as que leem... As que contam e as que ouvem. Para
toda história há sempre leitores em algum lugar, e histórias para todo tipo de
leitor. Há tempos, realmente a perder de vista, me vi fascinado pelas
histórias. Verídicas, fictícias, adaptadas, marcantes, esquecidas... Ou pelo
menos eu pensava que era. Porque há menos tempo, bem menos mesmo, descobri que
o que me fascina realmente são os personagens, não as histórias. As pessoas, e
todas as suas possibilidades. Percebi que as histórias, todas elas, são
pretextos para os personagens. Porque eles, que representam a vida, são o
grande conteúdo, a grande essência. Talvez por esse motivo, o velho Machado de
Assis se ocupava mais no psicológico e na alma de seus personagens que nas tramas
das histórias que eles viviam. Convencer alguém de uma história, ou propô-la, é
relativamente fácil. Convencer alguém que o personagem escrito é real, é um
desafio diferente. Mesmo que ele seja real apenas em alguma parte, em algum
lugar, em alguma situação. Pode ser alguém de outro mundo, um ser mitológico ou
o que o autor quiser que ele seja, mas deve convencer o seu leitor de que ele
existe. Deve dar-lhe as possibilidades cabíveis dentro do que se propõe no
texto.
Um dia levei um par de sapatos para
o sapateiro colar pra mim, e conversamos um pouco. Ele me disse que morava há
quarenta e três anos no bairro, e que era sapateiro há trinta e dois. Meu Deus!
Me deu vontade de ser um cara que morava há quarenta e três anos no mesmo
lugar, e que fazia a mesma coisa há trinta e dois; de preferencia, sapateiro.
Esse cara já deve ter visto muita coisa mudar por ali... Já deve ter visto
muita mudança na indústria de sapatos também. Quem era? O que o fez chegar ali
aos quinze anos de idade? Sua família, suas ideias, seu dia a dia...
Quando tenho uma vista privilegiada,
como numa sacada de um edifício, ou na frente da casa em cima de um morro fico
olhando para aquele monte de lares... As janelas, e cruzo meus olhares com as
pessoas que transitam. Mas gosto de fechar o foco. Quem é aquele cara que saiu
no quintal agora, naquela casa lá longe, de porta e janela amarela? Qual o seu
nome? O que ele faz da vida? Sua rotina, seus amigos, seus problemas, suas
ambições, e como a vida o levou até ali. Aquele cara mesmo, na piscina daquela
cobertura, ou aquele outro, atravessando a pontinha sobre o córrego. Devia ser
interessante saber umas quatro ou cinco respostas de uma dessas pessoas, e
através dali criar algo... É, eu acho que deve ser muito interessante.
De uns tempos pra cá comecei a
colecionar histórias verdadeiras. Elas enlaçam personagens diversos e situações
aos montes. É como se eu importasse experiência, pra preencher mais o meu
espaço de poucos anos de observação. Essas histórias são misturadas, separadas,
confundidas em minha mente, assim como os personagens que elas sugerem. E
assim, com esse material reciclado, vou criando e recriando. Mas com isso não
quero dizer que publico a vida de ninguém, porque não faço. Elas são
aproveitadas de formas inusitadas, quase subconscientemente. E quando são
feitas com consciência, mistura o personagem de uma com a vida de outra e o
local de outro, tudo trocado, tudo adaptado. De tal forma que, nem eu nem o
personagem conseguimos lembrar boa parte das fontes de inspiração.
Os métodos de coleta dessas
historias e vidas também são inadvertidamente dinâmicos. Quase nunca se
repetem, e geralmente os fornecedores
não tem consciência do que elas se tornam. Às vezes entrevistadas diretamente,
às vezes apenas observadas atentamente. Às vezes seis meses de pesquisa, às
vezes seis segundos de atenção. O “se” está sempre presente na hora de
aproveitar esse material humano, e acaba por reconstruir a maioria das coisas.
Essa fonte inesgotável que é o ser
humano, é um material fantástico para quem gosta de criar, sobretudo no mundo
das artes. É um fenômeno que gira em
torno do dinamismo de mudanças que ocorrem nas vidas e no mundo. Quando conheço
alguém que viaja muito e faz varias coisas, fico imaginando a cabeça de uma
pessoa assim, e tentando coloca-la em diversas situações na minha mente, e
exercito assim a criação sob uma espécie de trilho, pelo qual a história vai
deslizar até ganhar impulso próprio.
Qual o motivo de aquela mulher estar
lendo aquele livro no trem? Quem é o cara que entrou no ônibus no ponto
anterior? Qual a historia do aniversariante daquela festa em que o garçom
trabalha, e que caminhos o tal garçom galgou para chegar até aquela bandeja?
Acho, mesmo, que em algum ponto do universo, do ar, das ideias, sei lá... Em
algum ponto, de fato, todos nos ligamos a todos, e a tudo. É o que costumo
chamar de engrenagem. O sapato que vc compra foi tocado por quem o fez, por
quem o encaixou, por quem o vendeu, por quem o empacotou, até chegar a você.
Pra mim, este tipo de ligação é secundária, e existe apenas para nos dar
qualquer explicação de que todos precisamos de todos e estamos ligados a todos;
mas estou certo de que os motivos (aqueles que desconhecemos de fato) são
infinitamente maiores e mais intensos. Essa energia toda é que compõe a matéria
de que todos somos feitos... Aquela que inspirou o comentário de Shakespeare de
que somos feitos da mesma matéria que os
sonhos. Foi a palavra que ele escolheu; poética, bonito. Não sei se seria
isso ou não, talvez eu usasse outra. Mas o fato de ele ter pensado nessa mesma
coisa que nos une a todos é simplesmente maravilhoso, tanto quanto à obra dele.
Porque ela foi inspirada na obra do mundo e da natureza: o ser humano.



